terça-feira, 9 de fevereiro de 2010


Os meus sapatos castanhos…

Sempre escutei, quando me diziam que uma palavra magoa mais que a pancada. De facto, a vida ensinou-me que assim é, várias vezes escutei palavras que me magoaram. Mas, sempre tentei atenuar a mágoa que essas palavras me provocaram. Actualmente, com quase quarenta e seis anos, julgava que conhecia todas as diferentes maneiras de interagir perante uma ou outra revelação, que algumas palavras carregam. Interpretar o que certas palavras significam, sempre dependerá dos meus sentimentos, da forma como os consigo gerir.
Há poucos dias, uma simples palavra revelou-me o que sentem os meus sapatos castanhos, os que mantenho na prateleira do armário. Só me apercebi do quão magoados devem sentir-se, quando me colocaram na mesma situação… também eu fui colocada na prateleira, na prateleira das opções, assim como os meus sapatos castanhos. Eu, que julgava que só se podia optar por sapatos, por algumas peças de vestuário, coisas que para mim eram comuns… banais.
Agora que somos parceiros, que aguardamos pacientemente que optem por nós, agora sim, entendo o que sentem. Como fui insensível, fria, ao não ver que sofriam, que ficavam magoados de cada vez que abria a porta do armário e sendo eles uma das minhas opções, simplesmente os ignorei. Foi preciso sentir na pele, foi necessário que alguém me dissesse que, na vida temos que fazer opções e, que nunca em tempo algum, seria eu, a opção na vida dessa pessoa. Esta revelação, levou-me a pensar o quanto tenho sido cruel, para com os meus sapatos castanhos.
Jamais pensei que se pudesse optar por este ou por aquele irmão… sempre achei que ser irmão era muito, muito mais que um simples par de sapatos. Na realidade, depois desta revelação, a certeza de que na vida, só temos o valor que nós próprios nos damos! Eu? Simplesmente consenti que me colocassem na prateleira… assim, igual, como eu fiz aos meus sapatos castanhos. Que estranha ironia!


5 de Março de 2009
Antónia Serafim

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