sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Lado a Lado

Lado a lado…


Já lá diz o ditado: “Depois da tempestade vem a bonança”. Sim, realmente assim é. Só fica em mim, uma dúvida… qual a mais forte? Qual a verdadeira? A tempestade ou a bonança?
Vivendo lado a lado, caminhando de braço dado, vamos eu e tu, ou será nós e ele? Não, definitivamente vamos, eu e vocês! Quantos seremos? Um, dois, ou seremos três? Não, definitivamente somos… nada!
Frequentemente, pessoas alheias à realidade de quem vive assim, a três, de quem não é nada, tecem comentários… quem? Ele? É uma jóia de pessoa, não fôra esse malvado vicio, não haveria ninguém melhor, ninguém que se lhe comparasse… mas, a culpa é do álcool! Quem sabe das razões que o levaram a isso? Quem sabe não é um refúgio? É, quem sabe? Sabemos nós! Eu, tu e ele. Ou será eu e tu?
Curiosa, olhei para dentro de uma garrafa, abanei-a, virei-a de pernas para o ar… e nada! Não me respondeu, não me maltratou, não me ignorou. Limitou-se ao seu espaço. Coloquei-a de volta ao seu recanto. Aquietou-se. Permaneceu em silêncio. Não, a culpa não vem da garrafa, nem do liquido que ela contém… chiu! Acho que a culpa é de quem a abre, e lhe retira o conteúdo, só pode ser! Se eu própria a revirei, e nada!
Só se fica revoltada por lhe roubarem o corpo, ou porque de repente sente o vazio… é, talvez seja isso.
Quem gosta de se sentir vazio? Ninguém! Provavelmente, o mesmo sentem todas as garrafas que são esvaziadas. E vingam-se! E desmascaram quem delas abusa. Permitem que nos mostrem a sua verdade, o que realmente são… a tempestade!
Quando bonança, permanece quieta, calada, sem vida… o olhar preso num ponto, a voz parece esquecida, os passos retraem-se… com medo de caírem no abismo da vida. Vidas arrastadas, pelas garrafas, vencidas. É, a culpa é do álcool… é quem impõe a vontade, quem dá coragem de ser cobarde. Atitudes altivas de garrafas de alma despidas!
Seguindo, seguimos lado a lado… eu, tu e ele… o vicio!


22 de Dezembro de 2008
Antónia Serafim

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

O que me limita...

O que me limita…

Ser mulher!
Condição, que me limita.
Ser mãe!
Amor, que me limita.
Ser esposa!
Opção, que me limita.
Limita os meus desejos, a liberdade, a coragem. Só o pensamento não se limita, não se prende, só ele conhece os desejos, só ele corre livre, só ele tem a coragem… só, o pensamento!
Quisera sair na noite, desvendar-lhe os mistérios.
Quisera erguer o Sol, roubar-lhe um pouco de brilho.
Quisera subir a montanha, no seu topo soltar o meu grito.
Quisera adormecer no mar, no seu balouçar deixar-me levar.
Quisera seguir o vento, ao seu lado viajar.
Quisera escutar a voz, que me diz: “ Sai, vai ser feliz”.
Quisera ser indiferente, com coragem… cobardemente.
Quisera se eu, sentir que sou gente.
Quisera… quisera…
Nascer mulher! Nascer limitada. Limitada à sociedade, limitada às opções, limitada às regras.
Ser mãe! Dar à luz mais limites. Limitar-se ao amor, limitar-se às necessidades, limitar-se ao limite.
Ser esposa! O pior dos limites. Limitar a nossa vontade, limitar os nossos passos, limitar os anseios, limitar devaneios. Limitar-nos ao tempo, ao espaço, à “superioridade”. Limitar a lágrima, limitar o sorriso… limitar nosso brilho.
Sinto que o limite me trai. O meu próprio limite, já impõe mais limites.
Queria ser inconsciente! Agir sem pensar. Banalizar meus limites, enriquecer a minha condição, amar, sem amor limitado, optar por um sonho ilimitado.
Limita-me a dignidade!
Limita-me a maternidade!
Limita-me a lealdade!
Mulher… limitada!



23 de Dezembro de 2008
Antónia Serafim

O que esperar...

O que esperar…

Esperar, que a vida, ou alguém nos surpreenda. Esperar que a solidão se aquiete, que se deite e logo adormeça… que sonhe… que nos esqueça.
Esperar, que o silêncio se cale, que não o escutemos… que seja a nossa voz que fale… que fale, até que, de novo o façamos chegar, através da ternura, do encanto de um beijo.
Esperar, que o tempo pare, aí, onde queremos ficar… que fique connosco, nos deixe sonhar, parados no tempo de amar… e esperar.
Esperar, pela brisa… que nos afague o rosto… dá-lo ao vento, à ventania, para que nos derrube, e depois, com a mesma precisão, nos erga, que nos presenteei com um pouco da sua força, da sua rebeldia… e assim nos faça nascer de novo, acreditar num novo dia.
Esperar, que não nos vença o cansaço, cansado por tanto esperar. E esperar que a cada madrugada, o sol nos venha brindar, que nos aqueça, e junto aos seus raios, nos deixe brilhar… e no seu brilho nos deixe ficar.
Esperar, que a vida nos conforte, que retire do pensamento, a lembrança, as palavras, que falam de morte… que não permita que lamentemos a sorte.
Esperar, que deixemos de fazer de conta, que não sabemos sorrir… que a velhice chegou, que foi quem nos derrubou, quem nos maltratou e, com um sorriso nos lábios, nos abandonou, nos acomodou, num recanto escondido, sem rumo, sem porto de abrigo.
Esperar, que nos perdoe o castigo, que não imponha mais regras, que nos deixe seguir, em paz. Que nos dê tréguas.
Esperar, que nos visite a coragem, de não vivermos à nossa margem. Que nos faça acreditar, que são nossas as armas, que precisamos lutar, e vencer, e sermos vencidos, e viver… e sonhar, e darmo-nos aos sonhos rendidos.
Esperar, que não vivamos à espera, do nosso dia de Primavera.
O que esperar, de quem vive à espera?
O que esperar, de quem se rende à cobardia de esperar por um dia?
O que esperar, de nós, da vida, de quem se entrega rendida?
O que esperar?


22 de Dezembro de 2008
Antónia Serafim