Todas as noites nos sentamos à mesa, juntos partilhamos o tempo da refeição, em silêncio… os olhos fixos na TV, ou porque passa um bom jogo de futebol, ou porque o programa é “interessante”. A hipótese de uma conversa é mínima, pois a palavra que reina é “chiu”. Quando a TV, o programa “interessante” permite, a vontade, o assunto sobre o qual se tentou falar perdeu a importância e, finge-se que o esquecemos. De novo o silêncio…
Todas as noites dividimos a mesma cama, onde os corpos já não se encontram, não se procuram, a vontade, o desejo há muito que nos abandonaram, dando lugar ao silêncio. Aqui a TV também lidera e, novamente a palavra “chiu” assume o comando. São as lembranças, as saudades dos tempos vividos, tempos antigos, quando ainda sabíamos conversar, falar de amor, ou simplesmente contar pequenos detalhes do nosso dia-a-dia. São estas recordações que nos adormecem… em silêncio.
Quando um dia o corpo pede algo mais, e se lhe entrega… o gosto amargo que fica confessa-nos que estamos mortos, morremos e nem nos demos conta, e ficamos a pensar… “O que será que se passa? Será que entrou alguém em nossas vidas?” É a desculpa que encontramos para a nossa saída, não, não entrou ninguém! Fomos nós quem saímos, fomos nós quem nos ausentamos de nós mesmos, perdidos no silêncio, em silêncio. Até nos esforçamos, fazemos força mas, a lágrima não cai… mortos e secos! Ouve-se o silêncio…