sábado, 21 de agosto de 2010


O último tom…

Quantos tons existem? Quais os seus poderes? A cor, os seus tons… são quem nos demarcam, quem nos preenchem. Com toda a certeza, acredito-o plenamente!
Numa retrospectiva de toda a minha vida, de todos os passos mais importantes, mais marcantes, visualizo um arco-íris. Um arco-íris pintado pela minha mão! Não recordo que nesta minha pintura, um dia, tenha utilizado a cor rosa. Contudo, estou certa que o usei. Talvez tenha sido num tempo inocente quando, pequena, muito pequena para entender, para perspectivar o sentido da cor, lhe tenha desvalorizado a suavidade, a leveza que com toda a certeza me fascinou, inocentando-me. Com toda a certeza que o pintei… o tom da minha feminilidade!
Azul-celeste! Deste tom tenho uma vaga lembrança, a nítida recordação de um tempo em que imperava a inocência, um tempo em que tudo era tão real quanto a irrealidade que vivia. Azul-celeste! O tom dos meus sonhos!
Inesperadamente, os tons alteram-se e abruptamente, a suavidade dá lugar à agressividade. Um tom cinzento vem e instala-se! O tom que demarcou toda a minha tristeza, um tom que tentei ocultar camuflando-o de amarelo, de laranja… a necessidade de o combater, permitiu-me viver os tons que declarei serem de alegria… amarelo e laranja! Os tons da minha fantasia!
Como toda a fantasia, também a minha é derrotada ao sabor de um novo tom… o tom pintado pelas lágrimas que o sorriso disfarça. Um tom escuro, tão escuro que me amedronta, que me vence. Preto! O tom dos meus medos! Mas, e creio verdadeiramente que este mesmo tom, nutrindo por mim, se não pena, quem sabe um pouco de carinho… colocou ao meu dispor um tom violeta que me aquietou, me despertou para um tom avermelhado que me aprisionou. Presa ao sorriso, à meiguice…à ternura mais inquietante, que pode existir entre um caminhar lado a lado com os tons mais fortes, os que mais luta me deram os quais, sem sombra de dúvida, me venceram, me subjugaram à sua vontade. Violeta, vermelho! Os tons do meu romance!
Depois da tempestade… a bonança! Um tom verde abrilhanta o meu coração, enche-o de esperança, permitindo-lhe sonhar… sonhar com novos tons, cores que se misturam formando um tom que nenhum pintor conseguiu um dia alcançar. Um tom entre o dourado, o prateado e o azul que só um lindo pôr-do-sol atinge! Dourado… prateado e azul! Os tons do meu despertar!
Na calmaria que só o tempo acarreta, visita-me um outro tom, um tom desordeiro volvido pela desilusão, pelas angústias… pela saudade! Um tom vermelho tão escuro que me fala de sangue, de tristeza! Vermelho escuro! O tom da minha melancolia!
Um arco-íris! Um arco-íris pintado pela minha mão.
Só um tom a minha mão não pintou. Talvez porque se esconda, se encontre perdido no meio de tanta cor. O branco! O tom da minha paz!
No meu momento actual, o tom do qual aguardo a visita… o branco! O último tom!


17 de Agosto de 2010

Antónia Serafim